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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

alice

foto Henri Cartier-Bresson

Seis e trinta da manhã. Acordou cedo, mas esperou deitada até que a viessem preparar para o pequeno-almoço. Às sete e trinta já estava vestida e penteada. Os cabelos brancos, presos com um gancho verde esmeralda, pendiam-lhe para o lado direito da face. Olhou para o espelho e com um gesto suave virou ligeiramente o rosto para se ver de perfil. Pediu, educadamente, que lhe colocassem os brincos de madrepérola que herdara da mãe. Desceu, pelo seu pé, para a sala de refeições e sentou-se no seu lugar à mesa. Pediu chá preto com um pingo de leite frio e comeu duas torradas com manteiga. Antes do relógio tocar as oito e trinta levantou-se, parou no bengaleiro, vestiu o casaco comprido de xadrez preto e branco, colocou o chapéu, pegou na bengala e saiu. Os seus 83 anos entropeciam-lhe o andar, por isso caminhava devagar cruzando-se com pessoas ocupadas nas suas rotinas matinais. Estava frio ainda! O nevoeiro intenso começava a desaparecer e o barulho e o movimento da cidade adensavam-se. À entrada do parque um pedaço de jornal velho esvoaçou de encontro às suas pernas. Pegou nele, colocou-o sobre um banco corrido no qual se sentou, aconchegando o pescoço com as abas do sobretudo. Fechou os olhos. Lembra-se de ter sentido um vento gélido entrelaçar-se-lhe entre os dedos e de ter resguardado as mãos nos bolsos do casaco. Notou que havia algo no bolso direito e percebeu que se tratava de um pedaço de papel amarrotado, certamente esquecido. Levantou-se Era um papel velho já amarelado, parecia uma nota de renda onde ainda se decifrava uma data: 1923. No verso, com uma letra quase tipográfica que reconheceu de imediato, estava escrito: “Não venho jantar. Amo-te. O teu que tanto te quer, Jorge”. Ficou imóvel, com o ar preso dentro de si, irrespirável. Sentiu as pernas trémulas e o peso do corpo a puxá-la para terra. Conseguiu, a custo, recostar-se no banco atirando a cabeça para trás. Não se lembra do que aconteceu depois. A única coisa de que se recorda foi de olhar para cima e ver que na torre da igreja o relógio já marcava nove e trinta.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

tu és eu e eu sou tu

"Switcheroo" é um projecto muito interessante da fotógrafa canadiana Hana Pesut. Um conjunto de retratos em que ela e ele trocam de roupa, num registo um tanto ou quanto cómico, um tanto ou quanto perturbador. Isto da neutralidade do género ainda tem muito que se lhe diga, pelo menos no que toca à indumentária.



mais fotos aqui e aqui

terça-feira, 26 de novembro de 2013

o fio e a meada

Por vezes não conseguimos escrever. Por vezes fica tudo entrelaçado e perdemos o fio à meada. Como começar a desenrolar este novelo? Onde está a ponta? Sentamo-nos e nada acontece. Esperamos um pouco, tentamos recomeçar, ou melhor, começar aquilo que ainda não foi iniciado, e parece que não estamos ali, parece que pairamos sobre nós mesmos à procura de um sentido, de uma palavra. Mas essa palavra não chega.

Ilustração de Annalisa Bollini, Itália

terça-feira, 19 de novembro de 2013

a avó


Nesta foto ela era capaz de ter a minha idade, talvez mais uns 2 ou 3 anos... Sorria, ao deixar-se apanhar pela objectiva do fotógrafo, enquanto o avô os conduzia ao casamento de uma das sobrinhas. A imagem que me ficou dele não é muito diferente desta. Já a dela não! Envelheceu connosco a ver-nos nascer, a mudar-nos as fraldas, a tratar-nos dos raspões nos joelhos. O cabelo a ficar mais branco, e ela a preparar-nos os lanches e a mandar-nos para a escola, a ver-nos casar e a sair de casa, e a entrarmos noutras casas e noutras famílias que passaram também a ser dela. As pernas a teimarem não acompanhar o corpo na vontade das tantas coisas por fazer, e ela a ver nascer os bisnetos, enquanto lentamente a velhice se instalava. Aos poucos a idade foi-lhe roubando pedaços de vida e autonomia. Apesar de ainda muito lúcida, por vezes as linhas da memória enovelam-se e é capaz de me perguntar, durante uma conversa sobre coisas passadas, o que é feito do pai dela...

A mim fascinam-me estas fotografias antigas, a elegância deles, o ar jovial e feliz dela. Imagino as histórias daquele dia, o amanhecer mais cedo, o café da manhã, as cumplicidades. Será que dançaram a valsa essa noite na festa?

segunda-feira, 22 de abril de 2013

pequenas coisas em dias extraordinários




Gosto de fotos antigas. De fotos de família. De dias grandes. De dias de sol. De piqueniques nos dias de sol. Gosto do mar. Gosto do cheiro da flor de laranjeira. Gosto que me ofereçam livros. E de oferecer livros. Gosto de tiramisú e de bolo de bolacha. Gosto quando me dizem que somos parecidas. Gosto de festas de anos. E de cantar os parabéns. Gosto de inventar histórias. E de escrever histórias inventadas.

22 de Abril de 1960. Estava um bonito dia, mas aquela hora da manhã já se sentia um calor um tanto ou quanto excessivo. O pai conduzia o velho carro com a janela aberta, deixando entrar uma brisa morna que lhes fustigava a cara. No banco de trás as quatro conversavam e riam. Por vezes havia uma que soltava um grito estridente, uma zanga era iniciada ou elevavam-se as gargalhadas. Nessas alturas o pai, com voz grave e usando apenas três ou quatro palavras, impunha silêncio e a calma regressava. Viajaram durante horas. Quando pararam, a mãe estendeu a manta no chão e tirou o farnel. Num dos cestos trazia um grande pão de ló onde colocou cuidadosamente as velas. E a aniversariante apagou-as todas, de um só fôlego, depois de entoado o "Hoje é dia de festa, cantam as nossas almas".  Durante a tarde a filha mais velha ficou indisposta e foi descansar para o carro. O pai, a mãe e as outras filhas resolveram ir dar um passeio junto ao mar, apreciando a quietude daquela terra selvagem. Já tarde, noite escura, no regresso a casa a aniversariante ainda comentou antes de adormecer "foi um belo dia, este".

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

aqui há uns anos


As crianças míopes usavam óculos de massa grandes que lhes enchiam a cara e vestiam-se com fatos de treino extra-large. Algumas famílias tinham Renault 5 vermelhos com tecto de abrir onde as crianças gostavam de se empoleirar. Não se usavam cintos atrás. Viam-se mais carrinhas pão de forma com dois vidros à frente.  E havia menos carros estacionados nas ruas. Muito menos.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

capicua


Há 77 anos as cheias do Mondego obrigaram o médico a viajar de barco até à aldeia para ajudar no parto da menina que teimava em não querer nascer. Hoje o rio não inundou o vale e o dia acordou com um sol brilhante que aqueceu este Inverno frio. E foi perto do mar que a avó contadora de histórias apagou as velas num bolo decorado com chantilly e morangos. Para a próxima capicua ficou prometido o melhor bolo de chocolate do mundo. Cá o esperaremos!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

isto é um presente de aniversário

Praguejam pescadores: Ora esta, ora esta;
O mar na praia é um tambor em festa!

Danado e rouco ele há lá quem o fateixe!
O mar não anda bom...
E som, e som, som-som,
Deita a fugir o peixe.

Meus patrícios, poveiros tal e qual
É a nobreza maior de Portugal!

Mesmo sou duma aldeia à beira-mar,
E ouço-o bem duas léguas em redol:
Meio ano a lavoirar,
Outro meio ao anzol!

Meus patrícios cada qual
Tem o seu bote que é o seu casal.

Mas o oceano, o mar, não anda bom:
Ondas são trambulhões, e trambulhões de som!

Ó mar, meu brutamontes,
Música, deixa ouvi-la da noitinha;
Eu quero ouvir o murmurar das fontes
Que a noite já se avizinha...

Búzio do Mar, Afonso Duarte

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

flutuar

Foi assim hoje, a terminar a aula. Os olhos fechados, a água a entrar nos ouvidos e a distorcer os sons, a camuflar o barulho. Parece que andamos em círculos, mas pode ser só impressão. Vaguear. Conservar-se à superfície sem esforço.


Foto de Christopher Jonassen. Mais aqui

sábado, 29 de dezembro de 2012

é bom não ser filho único

Porque passamos a infância a andar à chapada dia sim, dia sim, e não tornamos a vida dos nossos pais numa monotonia. Porque somos obrigados a ouvir as músicas pirosas dos nossos irmãos nas vésperas dos testes de matemática. E aturar os amigos deles. E dividir os mimos e o colo. E chamar nomes e puxar cabelos! E temos a quem enviar postais foleiros quando passamos as férias grandes separados: "Olá! Então, tens tido saudades minhas ou preferes não ter ninguém com quem partilhar o quarto? Tens acampado muito? Comprei um saco-cama altamente muito quentinho, depois vês. Sei que não gostas de escrever, mas podias mandar pelo menos um envelope vazio. É fixe receber cartas! Porta-te bem, até um dia destes." Ah, como é bom ter irmãos e invejar as suas festas de anos quando apagam as velas numa laranja, só porque nasceram entre o Natal e o Ano Novo e anda toda a gente enjoada de bolos! E caberão quarenta velas numa laranja? Alguém já sugeriu uma toranja...

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

a insustentável leveza do ser

Andei a navegar no tumblr e aprendi a roubar imagens em movimento! Agora tenho um tumblr e um blog e já me disseram que o melhor era parar com isto, e escrever mas é o que tenho para escrever. E fazer mas é o que tenho para fazer! Eu, que não sou nem alguma vez serei minimalista, olho para os lados e vejo a quantidade enorme de coisas (materiais e imateriais) que vou re-colectando e a que tenho de dar destino, e nem sei por onde é que hei-de começar... O melhor, dizem os entendidos, é fazer listas (de preferência de tarefas), planear, se necessário recorrer a diagramas idiotas de perguntas e respostas -  Pergunta 1: Preciso disto? Hipótese 1: Não - Acção 1: Deitar fora; Hipótese 2 -  Sim; Acção 2: Voltar à pergunta 1 e reflectir melhor se realmente preciso disto. Não, decididamente esta aritmética não é para mim! 
Ontem ao jantar falávamos das casas onde já tínhamos vivido e a Maria dizia que estranhou quando mudámos para aqui. A casa estava muito branca, toda arrumada, faltava qualquer coisa. Pois, faltava o pó, faltavam os cheiros, os sapatos à porta, as roupas em cima da cama, os livros espalhados, a tralha! Depois, pouco a pouco, a casa começou a encher-se, fizeram-se almoços e jantares, organizaram-se festas, trouxeram-se cães e gatos, vieram os gritos, o barulho, a música, o cheiro das torradas, a areia que não sai dos tapetes, os casacos esquecidos em cima dos sofás, acumularam-se histórias que fizeram a casa e os que nela moram. Já nem sei ao certo a que propósito veio tudo isto! Acho que era qualquer coisa sobre aprendizagens e começos, e da dificuldade em arrumar a casa sem a despojarmos de vida e do majestoso peso dos dias. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

as linhas com que me coso

Quando hoje acordei ainda era de noite. Já fui à escola duas vezes, primeiro às 7h15 e depois às 8h30. Estavam três graus quando saí de casa! A gata hoje saltou para cima da mesa e entornou uma chávena de chá, que foi parar ao chão e se desfez em bocados. Ainda não eram 8h00! Tenho uma nódoa negra enorme na perna esquerda, porque não sei onde ponho os pés e fui contra um pesado cadeirão de madeira. As bolachas que faço de tomate seco e alecrim são maravilhosas! Hoje reparei que estão a crescer cogumelos cor-de-laranja no meu quintal. Decidi que, para o Natal, irei oferecer livros ou presentes feitos por mim. Está um sol lindo, agora! Hoje há aula de hidroginástica e eu ainda não sei o que hei-de fazer para o jantar. Fiquei contente com o prémio do valter hugo mãe. Gosto do que escreve! Um dia vou oferecer, pelo Natal, a toda a gente  A máquina de fazer espanhóis.




Andrew Herman, 1937. Da colecção do MCNY

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

93


19.11.73 - Para a avó L. Desejamos à nossa avó um dia feliz e que este se repita por muitos anos bons, cheios de saúde e junto de todos nós. Das netas amigas A e T.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

she's sugar & spice

No início do Verão de 2000 estava eu nos EUA quando soube que a minha irmã, de novo grávida, ia ter uma menina lá para Novembro. Era a minha segunda visita esse ano ao National Cancer Institute com o objectivo de trabalhar, trabalhar, trabalhar, para despachar resultados e vir para casa depressa. O pouco tempo livre que tinha era gasto em curtas visitas ao mall, onde comprava comida e descobria pequenas utilidades que ali, no país das oportunidades, me eram dadas a conhecer em primeira mão. O presente que trouxe para a minha futura nova sobrinha foi um desses objectos nunca vistos. Uma máquina fotográfica descartável, cujo rolo tinha pré-impressas frases dedicadas aos futuros rebentos. Lindo!! (A minha irmã nunca me disse, mas suspeito que tenha achado tremendamente foleiro). E  a 7 de Novembro, há precisamente 12 anos, depois de desperdiçar mais de metade do rolo com fotos desenquadradas e tiradas ao engano (como a do candeeiro do quarto da maternidade com a legenda She's so cute...), conseguimos aproveitar uma ou outra com a menina.



She's sugar and spice! A minha querida sobrinha mais velha favorita... que um destes dias me andou a mostrar o que é que em 1982 as miúdas de 12 anos, como eu, andavam a perder. Num post escrito a duas mãos, já a seguir.

domingo, 21 de outubro de 2012

aquelas socas amarelas


Coimbra, 21-10-1973


Querida Tila

Sinceramente, foi uma pena teres deitado fora as socas amarelas! Sabes, é que existe agora uma tendência no pronto-a-vestir chamada revivalismo, e em que tudo o que está fora de moda é moda. Se bem que isso a mim não me interesse muito porque, como sabes, nunca fui muito de modas, mas aprecio imenso estas coisas vintage. Hoje, por exemplo, até admitia colocar aquele sofá de flores na minha sala, ainda o terás por aí? Percebo que haja objectos que não possam ser guardados eternamente, ainda por cima se forem volumosos como sofás ou estantes, mas as socas, essas estão-me atravessadas... É que nem ocupavam quase espaço nenhum. Seria assim tão difícil guardá-las durante 40 anos?? Bom, mas hoje é dia de festa, estamos a preparar-nos para dar aí um salto. A pequena já não chucha no dedo e a mais crescida lá aceitou deixar o boneco em casa, mas insiste que tem de levar calçados os sapatos vermelhos...Olha lá, e as calças de xadrez??


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

luanda


Luanda, 11-12-42. À nossa mãe e avó muito amiga ofereço a fotografia de sua filha e neta queridas. L e N

Querida mãe
Se estivesse viva ia gostar de saber que a neta cresceu bem e saudável, com as maleitas próprias das crianças em crescimento. Bom, no caso dela alguns males tardavam em passar, aos 8 anos até teve de ser internada em Lisboa por causa da difteria. Sabe, mesmo tendo sido criada em África nunca deixou de ter aversão aos bichos e, veja lá, que era uma trabalheira levá-la à praia. Tinha muito medo da água e das alturas. Não imagina o que aconteceu no dia da 1ª comunhão. Tão linda, vestida de branco, teimou que não ia levar a salva e rompeu num chorrilho de asneiras que até fez corar o padre. Mas tornou-se uma rapariga bonita e hoje está bem casada, tem uma filha e dois netos adoráveis. A vida corre-lhe bem, julgo. E o tempo passa...esta sua neta já faz 70 anos. L. 26-09-2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

nevoeiro


Tudo é incerto (...) tudo é disperso, nada é inteiro - Nevoeiro, Mensagem, Fernando Pessoa

E é difícil distinguir o que é real, daquilo que imaginamos. Por isso tudo é possível...
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