domingo, 9 de março de 2014
coisas a acontecer por aqui
um vídeo feito pela Marta, com a Foz a conduzir-nos pelas ruas desta vila
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
folga ao jantar
Um jantar vegetariano que não precisei de fazer, porque uma adolescente prendada na cozinha resolveu pôr o avental e meter mãos à obra. Alho francês, cenoura, milho, azeitonas, tofu e lascas de amêndoa. Não sei se por estar delicioso ou pelo prazer de não ter que ter sido eu a fazê-lo... soube mesmo bem!
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
alice
foto Henri Cartier-Bresson
Seis e trinta da manhã. Acordou cedo, mas esperou deitada até que a viessem preparar para o pequeno-almoço. Às sete e trinta já estava vestida e penteada. Os cabelos brancos, presos com um gancho verde esmeralda, pendiam-lhe para o lado direito da face. Olhou para o espelho e com um gesto suave virou ligeiramente o rosto para se ver de perfil. Pediu, educadamente, que lhe colocassem os brincos de madrepérola que herdara da mãe. Desceu, pelo seu pé, para a sala de refeições e sentou-se no seu lugar à mesa. Pediu chá preto com um pingo de leite frio e comeu duas torradas com manteiga. Antes do relógio tocar as oito e trinta levantou-se, parou no bengaleiro, vestiu o casaco comprido de xadrez preto e branco, colocou o chapéu, pegou na bengala e saiu. Os seus 83 anos entropeciam-lhe o andar, por isso caminhava devagar cruzando-se com pessoas ocupadas nas suas rotinas matinais. Estava frio ainda! O nevoeiro intenso começava a desaparecer e o barulho e o movimento da cidade adensavam-se. À entrada do parque um pedaço de jornal velho esvoaçou de encontro às suas pernas. Pegou nele, colocou-o sobre um banco corrido no qual se sentou, aconchegando o pescoço com as abas do sobretudo. Fechou os olhos. Lembra-se de ter sentido um vento gélido entrelaçar-se-lhe entre os dedos e de ter resguardado as mãos nos bolsos do casaco. Notou que havia algo no bolso direito e percebeu que se tratava de um pedaço de papel amarrotado, certamente esquecido. Levantou-se Era um papel velho já amarelado, parecia uma nota de renda onde ainda se decifrava uma data: 1923. No verso, com uma letra quase tipográfica que reconheceu de imediato, estava escrito: “Não venho jantar. Amo-te. O teu que tanto te quer, Jorge”. Ficou imóvel, com o ar preso dentro de si, irrespirável. Sentiu as pernas trémulas e o peso do corpo a puxá-la para terra. Conseguiu, a custo, recostar-se no banco atirando a cabeça para trás. Não se lembra do que aconteceu depois. A única coisa de que se recorda foi de olhar para cima e ver que na torre da igreja o relógio já marcava nove e trinta.
Seis e trinta da manhã. Acordou cedo, mas esperou deitada até que a viessem preparar para o pequeno-almoço. Às sete e trinta já estava vestida e penteada. Os cabelos brancos, presos com um gancho verde esmeralda, pendiam-lhe para o lado direito da face. Olhou para o espelho e com um gesto suave virou ligeiramente o rosto para se ver de perfil. Pediu, educadamente, que lhe colocassem os brincos de madrepérola que herdara da mãe. Desceu, pelo seu pé, para a sala de refeições e sentou-se no seu lugar à mesa. Pediu chá preto com um pingo de leite frio e comeu duas torradas com manteiga. Antes do relógio tocar as oito e trinta levantou-se, parou no bengaleiro, vestiu o casaco comprido de xadrez preto e branco, colocou o chapéu, pegou na bengala e saiu. Os seus 83 anos entropeciam-lhe o andar, por isso caminhava devagar cruzando-se com pessoas ocupadas nas suas rotinas matinais. Estava frio ainda! O nevoeiro intenso começava a desaparecer e o barulho e o movimento da cidade adensavam-se. À entrada do parque um pedaço de jornal velho esvoaçou de encontro às suas pernas. Pegou nele, colocou-o sobre um banco corrido no qual se sentou, aconchegando o pescoço com as abas do sobretudo. Fechou os olhos. Lembra-se de ter sentido um vento gélido entrelaçar-se-lhe entre os dedos e de ter resguardado as mãos nos bolsos do casaco. Notou que havia algo no bolso direito e percebeu que se tratava de um pedaço de papel amarrotado, certamente esquecido. Levantou-se Era um papel velho já amarelado, parecia uma nota de renda onde ainda se decifrava uma data: 1923. No verso, com uma letra quase tipográfica que reconheceu de imediato, estava escrito: “Não venho jantar. Amo-te. O teu que tanto te quer, Jorge”. Ficou imóvel, com o ar preso dentro de si, irrespirável. Sentiu as pernas trémulas e o peso do corpo a puxá-la para terra. Conseguiu, a custo, recostar-se no banco atirando a cabeça para trás. Não se lembra do que aconteceu depois. A única coisa de que se recorda foi de olhar para cima e ver que na torre da igreja o relógio já marcava nove e trinta.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
de uma futura bióloga artista para os seus pais e irmã
Ainda se fazem coisas boas em Portugal.
Ouçam e vejam o vídeo, está muito fixe
Viva a música, o filme e a fotografia
domingo, 8 de dezembro de 2013
há gelo no meu quintal
Domingo, 10h30 da manhã. Já nem está frio, pelo menos o sol vai aquecendo o dia e a roupa pode ir secando ao ar. Está agradável cá fora e a há quem aproveite, e bem. No meio deste pequeno intervalo de Inverno alguém faz uma descoberta - gelo a boiar no cimo da banheira que temos no meio do quintal. Um espelho de gelo, transparente e quebradiço, como um lago nórdico em versão miniatura. Pois sim, o sol dos dias engana, já as noites não... anda por aí um frio de rachar.
Dei-me conta que ainda não fizemos bolo de noz com a colheita deste ano. No próximo fim-de-semana, espero!
foto da Marta. Está bonita, não está? Que jeito tem esta miúda...
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
tu és eu e eu sou tu
"Switcheroo" é um projecto muito interessante da fotógrafa canadiana Hana Pesut. Um conjunto de retratos em que ela e ele trocam de roupa, num registo um tanto ou quanto cómico, um tanto ou quanto perturbador. Isto da neutralidade do género ainda tem muito que se lhe diga, pelo menos no que toca à indumentária.
mais fotos aqui e aqui
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
as auto-caravanas

Quando éramos miúdas costumávamos ir acampar nas férias. O meu pai tinha transformado uma antiga Toyota Hiace numa auto-caravana, que usámos durante anos a fio no Verão. No interior, o espaço era aproveitado ao máximo - mesas que se transformavam em camas, imensas gavetas e arrumos, módulos que podiam ser removidos e instalados cá fora. Existia também uma sanita química, um chuveiro de exterior que se podia pendurar nas árvores, toldo, cadeiras, geleira. Enfim, uma mini-casa móvel que ao longo do tempo ía sofrendo adaptações e up-grades para se ajustar às nossas necessidades de auto-caravanistas amadores. Lembro-me dum ano em que o meu pai fixou um estrado por cima do tejadilho da carrinha e era aí que montávamos a tenda canadiana (uma daquelas azuis e laranja dos anos 80) onde eu e a minha irmã dormíamos. Um género de uma autocaravana-duplex de dois andares... Essa Toyota (já muito velhinha) ainda foi usada nas nossas primeiras férias com as miúdas pequenas (aquela na foto é a Maria, devia ter uns 3, 4 anos), mas depois foi vendida. Mais tarde veio uma Fiat Ducato toda preparadinha de origem, com casa de banho independente e chuveiro e esquentador, e tudo e tudo! Mas desta guardo menos recordações e muito poucas histórias. Depois, durante muitos anos, as autocaravanas andaram esquecidas. Até agora! De há uns meses para cá dei por mim a pesquisar modelos, preços, comparar especificações, quantos lugares de livrete, quantas dormidas, o tipo de motor, se 1,9, 2,5 ou 2,9, o ano de matrícula, o nº de Kms, se a montagem é Hymer-Eriba ou Karmann ou Burstner. Todos os dias ao serão, mesmo antes de deitar, a mesma rotina: pesquisar as últimas novidades de auto-caravanas usadas, escolher, enviar e-mails a pedir mais fotos, colocar de lado. Tenho listas organizadas por preços e modelos, hoje acrescento mais uma, amanhã retiro outra que já não está disponível, porque foi vendida.. Às vezes penso que nunca vou chegar a ter uma, que vou continuar a passar os serões neste jogo da procura da auto-caravana perdida, neste faz-de-conta sem fim, numa espécie de catarse para expurgar os desvarios do dia.
É bem capaz de existir uma teoria qualquer da psicanálise que explique estas coisas...
É bem capaz de existir uma teoria qualquer da psicanálise que explique estas coisas...
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